terça-feira, 17 de novembro de 2015

O B/Lixo

PROVA – EFETIVIDADE DE DIREITOS – 2º BIMESTRE
Bruno Barreto Mesiano Savastano


O Bicho

“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem”.
                  
                                                                                 - Manuel Bandeira

   Nasci e fui criado em Ilhéus, terra de Jorge Amado, no extremo sul da Bahia, onde a pobreza e falta de oportunidades são tão latentes e constantes quanto o azul do céu sobre as cabeças dos que lá habitam. Quando ainda muito jovem entrei em contato com este poema do Bandeira, que me moveu mais do que qualquer outra frase, história ou cantiga com a qual tivesse entrado em contato até então. Dez linhas que me marcaram pela eternidade.
   Eu não conseguia compreender naquela época o que poderia levar um homem àquele estado; o que poderia se passar com uma pessoa para que ela fosse reduzida à condição de bicho, ou menos que isso, à condição de monstro – por deixar que outros homens se tornassem bichos.
   Quando tinha não mais que 12 anos de idade o colégio em que estudava organizou uma excursão - o destino era o lixão da cidade. Estávamos aprendendo sobre o lixo, sua toxicidade e sobre o problema de como se livrar dele sem afetar o meio ambiente. A Toyota que carregava as 10 crianças pela imundície, no entanto, limitou-se a uma breve e superficial visita; vimos o lixo, sentimos seu cheiro... Havia casas de madeira montadas em meio a ele. Passamos em frente a uma delas e pude ver algo que jamais esperaria: dentro da casa não havia nada além de espaço. Não havia móveis. Não havia eletrodomésticos. Não havia azulejos, cama, pia, privada, nada além de espaço. À frente da casa uma mulher avistava a Toyota como uma espaçonave jamais vista; era magra, tinha um rosto fundo, barriga saliente e o olhar mais vazio que já vi não pertencer a um cadáver... Tétrica figura.
   Voltamos para nossas casas, todos impressionados com o que havíamos visto. Em minha imaginação à noite, deitado em minha cama quente no ar-condicionado, sob o cortinado que me protegia dos mosquitos, aquela mulher era o único ente presente. Onde dormiria?! Estaria só?! Eu não podia deixar de lado o sentimento de que aquela história do lixão não tinha sido contada por completo.
   No sábado seguinte fiz um pedido a meu pai: que me levasse novamente ao lixão. Queria ver a história inteira, ou ao menos um pouco mais dela. Ele atendeu meu pedido e lá fomos nós em sua Chevrolet - Blazer.
   Inicialmente, tudo parecia o mesmo do que havia visto. Lixo por todos os lados; um fedor descomunal; galinhas; porcos. Um ecossistema próprio de animais despreocupados com a qualidade de suas próprias vidas. Pilhas e pilhas de pilhas descarregadas, fraldas usadas, geladeiras velhas, sacos plásticos rasgados - e tudo o mais que não era desejado - se amontoavam ao redor de um caminho de terra que levava a um vale. No vale, uma só pilha; sobre a pilha, pessoas. Que faziam ali, todas unidas?! Paramos a blazer a uma distância de aproximadamente 100 metros do “evento” e nos pusemos a observar. Do nosso lado passou um caminhão de lixo; para ele se voltaram todos os olhares. O caminhão desceu o vale e ali, sobre o lixo, começou a despejar tudo o que consigo carregava.
   Sacos e sacos de lixo eram derrubados em frente às pessoas e até elas rolavam. Como se fossem crianças no Natal recebendo presentes os seres humanos saltavam sobre eles procurando o que pudessem aproveitar: comida, roupa, utensílios, o que fosse. Não sem competição, é claro.
   Simultaneamente o faziam os urubus, disputando o lixo com os humanos, num cabo de guerra de detritos; humanos puxando de um lado, do outro, urubus. Esta era a realidade. A história não contada se desenrolava diante de meus olhos. Com o tempo, mais urubus foram aparecendo, a ponto de expulsarem dali os humanos, com seu número. Derrotados, como mineiros que mais uma vez não encontraram ouro, voltaram para suas casas.
   Os humanos haviam perdido a batalha; e era uma batalha que perdiam regularmente.
   Hoje, ao pensar naquelas pessoas, me emociono como então me emocionei. Vi o bicho do Bandeira em seu habitat natural. Verdadeiros bichos. Bichos ao ponto de eu me perguntar se aqueles bichos sabiam falar. Despidos de humanidade, bichos.
   Quanto às certezas e dúvidas que tenho no que se refere à efetividade de direitos, devo dizer que não tenho qualquer certeza. Apenas dúvidas recaem sobre meus pensamentos. Assim deve ser.
   De quem é a culpa daquilo?! Do estado, ausente?! Da sociedade, ausente?! Do capital, ausente?! Estado, sociedade e capital estão ausentes?! Há efetividade de direitos naquela realidade?!

   Bem, há quem diga que aquelas pessoas estavam excluídas da sociedade, do Estado e do capital; que estavam desprovidas de direitos, ou ao menos de sua efetividade.
   Eu me pergunto: haveria esta realidade se não houvesse Estado e capital?! Os direitos garantem ou limitam a liberdade daquelas pessoas?!
   São muitas as perguntas que minha filosofia anarquista não permite ainda responder, mas me parece claro que a condição em que aquelas pessoas se inseriam não passa de uma consequência do modelo social existente. Um reflexo da realidade, sem maquiagem. Um universo em si, provido apenas de restos.
   Aquela é a sorte de quem não se conforma ao modelo atual; são as pessoas que não servem sequer para serem escravos do sistema. Livres! Absolutamente livres – para nada.
   Enquanto isso, há os que são livres para algo, como Blazers, camas e ar-condicionado, escravos ignorantemente voluntários do sistema, escravizando o sistema, consumindo o sistema e despejando os restos sobre as cabeças das pessoas. A desigualdade social é um pressuposto do capitalismo; uma condição imposta pela hierarquia.
   O modelo de Estado imposto à sociedade me parece cada vez mais uma farsa que se apresenta como uma solução aos problemas da sociedade e é, na verdade, uma ameaça à convivência igualitária. A constituição, tão bela e aparentemente bem-intencionada serve muito mais aos poderosos que àqueles de quem o poder foi usurpado há muito tempo, como é natural que seja. Àquelas pessoas me parecem não faltar direitos; me parece nunca ter estado tão presente sua efetividade. O que lhes falta é dignidade. Todos têm direito à dignidade humana?! Quem é o Estado para nos conceder este direito?! A dignidade é mais que um direito, ela é uma condição para a humanidade. Sem ela não passamos de bichos, como o do Bandeira.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O Peso da Língua

Tarda mais uma janela
Em minha noite...

Avança a madrugada
Como avançam em minh’alma
Todas as madrugadas.

Cintilam em mim escuras estrelas...

Uma constelação de sóis
Invisíveis e frios...

Explodem em mim
Estrelas que nunca nasceram,
Sem universo que as contenha,
E caem no vazio.

Há em mim estrelas mortas que nunca vi
E nunca ninguém viu,
Sistemas solares imóveis
Em busca do Impulso.

Impávidos asteroides,
Quasares impassíveis...

Há dores e odores de metal,
Gardênias,
Delírios,
Há pétalas do Quênia...
Há lágrimas de lírios...

Mas pouca vegetação germina
No vasto deserto e o espaço
Carece de matéria prima...

Não há oxigênio,
Não neste milênio!

Não há sequer um lápis
Ou
Páginas de livros...

Decerto dormirei
Quando amanhecer o dia,
Por certo já errei
Bem mais do que devia.

Há galáxias plácidas
Nos devaneios desta vida,
Menos virtude no pouso que na descida,
Mais sonhos roucos que loucos no asilo
E quanto mais grave a queda,
(o silfo em mim à ninfa avisa)
Mais agudo será o sibilo.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Agorafobia

É por vergonha que durmo os dias...
Não me vejam! Jamais me vejam,
Paspalho que sou na vida,
Nem me julguem!

Não, me julguem!
Quero saber a opinião do mundo
E ver se nele encontro ao menos
Alguém que mais me culpe...

Uma cruel opinião,
Deem-ma!
Todo o ouro que jamais terei,
Todo amor que jamais senti,
Toda paz, oh, toda a paz!
E muito mais
Pela cruel opinião
Guardada em si...

Sou parcial e justo,
Por isso sofro,
Por isso durmo...

Afastem de mim os olhos,
Pois são espelhos...

Ver-me-ei de dentro para dentro,
Por dentro de mim
Até que vermes vire!

Dentro sou maior
Que o mundo
E seus julgamentos!

Superior ao mais nobre dos sentimentos!
E minto...

Sou pequeno, sujo, fraco, inútil.
Inútil!!!

Por isso durmo...
Dormindo sofro,
Acordo e sumo...

domingo, 6 de abril de 2014

The Leaf

I saw a leaf on the pavement at night
Still it laid,
Stepped on the edge, on the edge of time…
I picked it up
And looked at its veins, full of lifeless life, I
Looked at Its green, crude and lifeless like
A stone, I looked at it.

It faded into the brown of death,
Alive, as all is alive,
Only I
Looked at its veins full of beaten beauty
And stared into the stars of its green, the city
Shivered.
Only I
Knew the leaf,
Only I
Paid attention.

It was me, but
Would never be
Forever mine.

sábado, 22 de março de 2014

(mind the gap)


I feel trapped in my mind,
I look out,
See people move and be and think
How can they?
How do they have the strength to move?
And I do it sometimes,
Sometimes I just get up and go, but how does it work?
And here I am now,
Talking to you
Trying to sing
And who are you?
To whom do I address myself in these reveries?

Everything melts,
The screen melts,
The heart melts,
The mind melts
And is spilt on the floor, which is spilt on the mind
And splits!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Mighty Mice

Rock the Cradle,
Roll the dice.

In velvet seas
Too many people float through life
And sink in ice!

Conversations, crowded minds!
Would you settle?

Freedom is overpriced...

Every man is a rat inside!
Every man a fucking god!
All might....

Every soul is afraid at nigtht;
Every soul ails in the crimson skies,
Tied up
In lines and lies!

Mera semelhança é qualquer coincidência!

Desde que te vi não me vejo mais aqui...
Vejo o mundo por aí e me consolo
Por saber que nele existes...
Esteamos todos tristes..!

Já te sei, como soube,
Subi! E daqui não desço, nem ninguém
Me desce!

Proibida só para mim?!
Ingenuidade!
Que pensei?! Que fácil seria?!
Tortura minha alma aos poucos,
Vida!
Tortura!
A mim e a todas as sensações que não me cabem,
Que eu não me caibo!
Eu e ti...
Aqui,
Por vir, não sei,
Te amei, sofri!
Ou lá?!
Êita lá ô...

E jamais deixarei de te ouvir em mim...

Oh, em mim...

Toda a beleza fora e em volta de mim...
Que fim!

Esta chuva que não chega ao solo,
Um resto de rosto escondido num mundo de cegos...
Cego que só não sou cego quando fecho os olhos,
Me molho!
Te sonho e me tomo no imbróglio
Bucólico da realidade em si!

Me tirem, Ah!
Já!
Me tirem daqui!

Obrigado, amor primeiro...
Tiraste o veneno de mim!

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Pointless Edges

Would I dare do it for beauty?
Stop with the questions again, seriously...
You'll drown in them!

Beauty is what beauty sees...
I know what you mean, but no one will ever understand that...
It's too ambiguous and the reader will read it wrongly...
Won't you?!

This probably won't ever make it to a book, anyway...
What readers, what are you talking about?!
Do people even read anymore?
Or are we so fucking low that we can't see it?!
And if you can't see it, how do you read it?
Fuck me with these questions again, next time it will be different!

No questions, just thoughts, what thoughts if they're all questions?
Ah!!!
How far?
We are never on the same spot!

It Never Whens!

The nature of men?
Don't ask me that!

Stop conjuring those meaningless questions!
They're not philosophical, you know...

We can hope, though, and dream!
If dreams will become reality, who knows these things?

Things, things, things!
So many of them in this world...
Where are the adventures but in the movies?
Where, the soul's purpose on earth?

I told you to stop already, why are you doing this?!

Can't you just live free and do your best?
So many questions, stop it! Stop it!

No one has the answers, they think they do!
Or don't think, and that is the reason of it all...

Don't even blink, friend, you can't miss it...
Do you see?!

What?!
Did you miss it?
Well...
Perhaps it will fly by another time...

Time....

It will probably fly by...
Now...
Or some other time...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Como Eu Como Quem

Como posso querer eu justiça, cometedor de tantas injustiças?!
Como posso querer eu paz, criador de tanta inquietude?
Como posso bradar o amor, eu que nem a mim mesmo amo?
Como posso qualquer coisa e ser ninguém?

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Boiando Contra a Correnteza

Não vou lhe agradecer
Ou jamais me desculpar
Pela errônea infinitude de atos
- Que sou -
Deste rol de imperfeições
Comprimidas num' alma...

Descanso no desassossego,
Danço e tropeço no enredo
Sonambólico das comédias
Entediantes das castas...

Sou piruetas sem graças
Num circo aleijado.

Um capacho esquecido;

Um ciso numa boca sem espaço
Que se projeta ao ouvido...

Um pobre diabo
Caído na Terra;

Não consigo sequer abaixar
Pra amarrar os cadarços...

Preciso de água como toda a gente,

Mas se fazes direito, só quero o errado!
Se banhas teu peito, prefiro meu nado!
Se restas parado, és todo o meu pleito!
Se estás cansado,
Ah,
Me deleito com o teu cansaço....

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Behind a Mount of Despair in Our Souls

Everythig you do is worth it,
Nothing you carry in your heart is useless;

Do it to me,
Bring it to me!

Flawlessly craving a blue maneuver amongst the hay,
Halos and horns are on top of the world...

Kneel, o puny essence of the universe, kneel
And punish all gloom all around...

I'm done crying for everything I'll never understand,
Omniclueless of end...

But why must you make me suffer so?
Why must you never let it go?

Do it for me,
Bring yourself to me!

Let me
Love you
As I do.

domingo, 16 de setembro de 2012

Tudo o que tenho não passa daquilo que não quero!
A que venho?
Cansei do bolero
E vou me divertindo na pobreza musical deste tempo corrupto
Quando o sucesso veste o monocromático tédio do terno...

Prazeres terrenos, tudo o que temos são prazeres terrenos...
Ou não sabemos?

Desculpem-me a franqueza, mas esqueci de tomar meu remédio,
E troco por pílulas a lucidez perdida desde sempre;
Estou preso na ilusão de uma vida massacrada por imagens confusas.
Abro os olhos e estou cego; quando os cerro te vejo flutuando na escuridão concisa
De meu cérebro, na consciência rarefeita de insinuações masoquistas e festas...

Conversamos por uma noite inacabada... E a escuridão do dia seguinte é o que me resta de ti...
As luzes da noite, o desespero incerto do por vir....

Sofro não lhe ter dito que ficasses, mas quem era eu para que te pedisse ficar?

Vejo a despedida de teus olhos no meu olhar... Como faço pra te reencontrar, te perdeste na noite!?
Deixei que te fosses...

"Don't go..."

Such a simple compilation of words...
And I wouldn't give you the arm to be twisted,

It was but pride, loneliness, love
What made me choose silence, penniless...

If I see you again, read my mind and stay...
Or don't...
I'll end up following you troughout the night
And perhaps thrive
To not such lonely a day...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Ontem, me acorda

O mundo está inteiro fora da ordem
As casas todas perdidas no mórbido flou
Deteriorando-se com o passar dos tempos e das gentes
Erguendo-se ao infinito dos olhos namorando as estrelas

Quem são as pedras caídas no mar?
Quem os amores terei de viver para viver o amor que me espera e não sabe quem sou?
Quantas paixões se perderam no "olá"?

E não sonho mais, apenas durmo a vida...

Depende do sonho e da vida quantas destas valem aqueles
Ou quantos daqueles fazem desta minimamente suportável...?

A todos os perdidos o nada encerrado na mente dedico!
Minto aos escombros do vento a cerrar-me os olhos
E acordo mais perdido nas folhas em que falhas escrevinho...
Sem amores ou gritos pra fora, amando e gritando pra dentro....

Me liberto da dor que me espera sem nada esperar; e nada me vem, subitamente.
E mais certo parece deixar de viver a vida e deixar que ela mesmo me viva,
Como uma pedra a rolar saltitando o destino...

Mas é chão todo o ar sob meus pés;
São pés as ferramentas todas à disposição

E a tua falta me deixa acordado na cama semanas a fio...
Eu já nem sinto o frio...

terça-feira, 24 de julho de 2012

Diário de uma noite só ou Você-eu & a distância


tudo o que cabe em linhas
tudo, que acabe em rimas

o dia de amanhã é o hoje
numa gramática bárbara

eu amo você, disse
e explodiu, morreu

era cor

se acaso estou mudo
etcétera: isto é tudo

5:35
20 de julho

domingo, 8 de julho de 2012

Romance Natimorto

Nem um pio no píer
E a lua minguante sorria,

Rochas quebrando nas ondas
Gozando o orgasmo do mar...

Equilibrando-se no horizonte, cúmulos!
Acima dos cúmulos, stars...

Estás comigo sta notte,
Navio naufragado no cais?

No píer,
Nem um pio.

Há tartarugas ao longe, não há?
Ondas, talvez
Sereias,
Quiçá?!

Se é relativo o tempo,
Será relativo o pensar?

Me mostrem o mundo das tartarugas
Aos olhos de um beija flor....

Te mostro as estrelas
Já mortas
E ainda no mesmo lugar...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Poesia envergonhada (ou O ser & estar da tristeza)

Hoje é tempo de comer mixirica
(Ou eu quero esse tempo de volta
Por isso escrevo)

Sentar no chão da sala
Quebrar a casca laranja
E ficar um minuto arrancando a pele
De cada gomo, o caroço
Pra só depois comer
Uma mixirica (15 minutos)

(Você e o seu cheiro
Que eu não lembro
Os dois) E esta mixirica

Minha mão suja a unha
Limpo na camiseta rasgada
É o último gomo
De que forma aproveitá-lo melhor?
Ao escrever, vou tirando os fios
Brancos que embaçam o laranja de dentro
Consigo ver um caroço ali
Não sei se como de uma vez
Ou se tiro o caroço primeiro
Opto por expurgá-lo
E então já acabou a fruta

(Mas essa demora toda me angustia.)

domingo, 24 de junho de 2012

Big Bangs the Poetry

Demência com quem durmo sta' notte,
Falência múltipla neural, pois assim ordena o velho e desbotado psiquiatra!

Falésias na escuridão cansada de gavetas tortuosas,
Mongólia, minha Mongólia querida ascensão de glória femural,

Candelabros a banharem-se em cachoeiras, cacho de banana podr e frio, raízes do sol!

Dentro do útero masculino a sangrar negro em Platão fora o cúmulo em que resto a testa,
Paradigma nojento de veias adjacentes sem a principal,
Caixas de papelão em que televisores são inúteis e todo o resto a tem(e) tem por único final,

Caixas de madeira dentre as quais a minha não ainda feita, pacientemente a me aguardar, hoje ainda viva...
               Estarás madura?
Oh, caixa abatida por lenhadores barbeados, sofro tua morte!
Penso hoje em ti e sofro por antecipação nosso destino e os dos vermes em que nos tornaremos...

O osso que restará não poderá fazê-lo...

Apelo a apolo em convalescênça por bondad(e) pelos pelos que me sobrem!
Anoiteço enfermo esta rollerball,
Mereço eterno este castiçal,

Castigo os pulmões com oxigênio sem cocaína...

Negações jupiterianas de Saturno e Titã!
Lorax!
Quasares em que marés pululam,

Big                                                                                         (QÜÉ....)
    Bang,
         Eu em ti estava!
Que me importa não star aqui      (u/ui)var
                                             lo
 A não ser puro o temor daqui      pelo que mais amor tenho,
                       Que sejamos sujos tua límpida.
                                    imaginação!               .
                                           !!                        .

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Meditação sobre a distância

brega é a palavra
que a boca come
e o olho cospe
.
.
.
se a palavra lágrima não existisse
(e a lágrima só existe porque existe
a palavra) a lágrima seria o cadáver
do amor

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Redução

Meu tempo é paradoxal.

Mas talvez todos tempos sejam...

Meu tempo é tempo de recodes e de atletas imortais.

É tempo de fazer ciência. Ciência microscópica, metálica, nano-metálica, inútil.

É tempo das crianças eróticas, jovens anti-heroicos e velhos de vinte e nove anos reclamando direitos a seus privilégios...

É tempo de levantes arábicos e mil e uma noites de terror em Wall Street.

É tempo de refeudalizar a sociedade em condomínios parcelados entre inúmeros anônimos vizinhos, e de viver sozinho, enclausurado, assistindo a nuas sombras na caverna mitológica moderna de estroboscópicos pixels coloridos.

É tempo cancerígeno siliconado! Milionários no gramado e miseráveis na torcida; infâncias perdidas na Europa, nas favelas, e querelas incontáveis de uma vida atrás da bola - sabidamente vietnamita.

É tempo de multinacionais interplanetárias, de lixos sustentavelmente tóxicos a preços relativamente módicos, ainda assim, rentáveis; de destruir para construir, de guerra pela paz, de paz pela construção devastadora da liberdade capitalista, guerreira capoeirista, mera dançarina aos olhos de um senhor escravizado.

É tempo de louvar, idolatrar e desmaiar pelo medíocre. Arte porreta desdenhada desenhada na sarjeta por um bêbado acamado no cimento pela gripe, enquanto em meio a tudo isso as jóias da coroa passeiam pelo campo ornamentando foices e martelos c'ouro falso, mas maciço.

É tempo de esquerda nada direita nadar na profunda receita cleptocrata de todas boladas que leva...
E leva boladas à torta e à direita, uma xícara de propina e duas colheres de impostos salgados a gosto.
Ao forno com todos!

É tempo sem tempo de ceder um só segundo a colegas inimigos ou a amigos concorrentes. Todos concorrem neste tempo. E como correm com pressa, impacientes no trânsito lento! Matam motoqueiros, sem talento ao volante.

É tempo de ipod, ipad, icloud, ican, oh yes, we can, e de vibradores digitais com direito a rádio AM e música gospel lasciva carregada no icloud do ipad para o ipod, yes we can, yes we can, yes we can!
Sim, a gente pode protestar aos surdos na Paulista pelos curdos, pela derrubada democrática de um governo ladrão, estuprador e carinhoso, embora ninguém o faça e poucos saibam quem são os curdos...

É tempo do progressista ultrapassado, do machismo feminista malogrado e de engatinhar em passeatas a debater o óbvio e interesses pessoais.  Da pequena batalha, que não é batalha, pela maconha, pelo aborto, pelo filho morto no iraque ou no leblon. Da negação de uma luta verdadeira contra o terno e seu recheio, romarias partindo do Rio a São Paulo a BH até Brasília, nossa inversa bastilha de criminosos livres cuja merecida residência é o presídio superpovoado interiorano; ou o esgoto mesmo.

É tempo dos museus abandonados, dos shoppings e mercados do freguês que o abarrota, se abarrota de mercadorias e tromba sem olhar para trás ou pedir desculpas ao criado.

É tempo em que não se escutam mais bandas da cidade e a roda viva está mais viva do que nunca. E roda por cima de todos, acima de tudo; tudo o que é matéria, som, luz, portando sombra, silêncio e a ciência metafísico-imaginária vergonhosa do poder.

É tempo de crianças que ignoram toda a graça e possibilidades de um barbante ou de uma caixa de papelão, limitadas às imagens de ação dos video-games entre quatro paredes, até que desçam ao playground pré moldado num projeto ultra arquitetônico da mais pura falta de imaginação.

É tempo de se curvar ao chinês domesticado pela besta imperial de um socialismo de fachada, de entregar-se ao imperialismo social americano de Nevada e de chutar um animal atropelado moribundo na estrada.

É tempo de garotas de família ansiosas pelos títulos de putas da cidade e de putas titulares lesionadas pela idade e cafetões a quem respondem.

Há tempos não ouço falar de assassinos em série...
Não sei, honestamente, se devido à decadência ou ao sucesso de sua classe.

É tempo adolescente da internet ainda jovem, encabeçando a evolução da raça humana, seu saber e toda a interdependência da comunicação complexa entre idéias desconexas que surgem a todo instante no meu tempo.

Augusto, e agora?
Para onde vamos nesta fúria digital?

Na dúvida, entrego-me à beleza...

Me decapite a beleza...

Vou sonhar um mundo unido e tolerante após a curva,
Transformar a água turva em vinho tinto de poesia,
Ruminar apaixonado as mais sinceras elegias frente ao espelho
Até que o despertar do alvorecer num céu vermelho infle a flor de vossas testas.

Por entre espelhos flamejantes
Rodopiar como um vampiro,
Imortal,
Presas à mostra;

Abocanhar de uma só vez os sete pecados capitais,
Perdê-los em maus lençóis, e
Inventar novos;

De cara mergulhar na gota de chuva espessa marciana:
Uma capa invisível pendurada em minhas costas,
Duas santas afrodisíacas prosternadas a minha volta,
Três mazelas insuportáveis
E um carteado de cigana
Que à vontade o vento espalha em minha cama;

E pela carta cuja face exiba o maior sorriso
Serei guiado à ingratidão pela porta dos fundos,
Coberto de razão, sangue, ouro, imundice e
Sincretismo social intergalático;
Este último encontrado não por acaso
Embaixo de uma pedra.

Que há com a humanidade?

Hein?
Que há contigo?

É falta de carinho?
Vem cá, humanidade, deixa que te abrace!

E passo a mão na cabeça da humanidade e recebo em troca 2012 facadas no fígado;

Ah, humanidade,
Teu mal é esta vontade egoísta de ser;

Humanidade, Deus não te ajuda porque você é ridícula.


II


Pensam-se corajosos os covardes; simultaneamente, pensam-se covardes os corajosos....
Não sou um,
Nem outro,
Ou ambos!

Consideram-se salvadores os que invadem. Invasores os que salvam...
Não sou outro,
Nenhum,
Ou ambos!

A felicidade traz consigo o carma do pranto; a tristeza se incumbe de transformá-lo em dom...
Ou ambos!
Não um...
Nem sou outro!

Sou tudo aquilo que sei,

Meu nome é Ignorância...

Sou barco e meu porto inseguro;
Sou Baco e me porto futuro,
Sou fraco em refluxo,
Músculo atrofiado e
Minúsculo.


III

Sei do universo grandioso.
Poder congelar-se numa câmara criogênica!

Mas o medo do futuro, oh, o horror, o horro ro ro ro ror...!

O sucesso da revolução mental
Dependerá da intensidade de nossa crise...
E não tarda.
Afinal, que são poucoscentos anos na história humana?!
Ou trezentas gélidas noites sob céu aberto para a mendicância urbana?

O homem cansará de ser apenas o homem.

Certa noite tive um sonho gay, acordei e quis voltar a sonhar em segredo sem medo da escuridão de meu armário largo ao qual todos são bem vindos;

Durmo sempre nu e de janela aberta por mais que frio faça,
Amo o vento a me ninar,
Como mãe a me ninar...
O vento é o mundo a nos fazer carinho...

Se cai uma árvore no meio da floresta sem ninguém por perto,
Ninguém se machuca...

Sei disso pois como um tronco caio diariamente e nunca houve quem me amparasse - ao menos me machuco sozinho.
Lá vou eu novamente:

MADEEEEIRAAAA!!!

Penso que grito, mas por falta de ouvintes, não grito; nem faço barulho estatelando-me ao chão.
Certo dia caí sobre um ninho de cobras e lá quedei-me...

Até hoje o remorso me acompanha ao leito!

Odeio e amo tudo e todos menos que eu mesmo,

Exceto quando estou em frente ao espelho, então meu reflexo acusa o vazio do qual nasci cheio e toma conta indiferença...
Percebêreis meu latente narcisismo?
Qualquer dia desses me afogo no vidro do banheiro enquanto me barbeio...

Meu reflexo paulatinamente me provoca,
Vejo em seus olhos uma vontade madura de precipitar-se em minha direção, estilhaçar a superfície que nos separa, agarrar um caco de vidro espesso, enterrá-lo na própria garganta e ver jorrar meu sangue...
Já não sei mais de que lado do espelho me encontro,
Se sou eu,
Se o reflexo,
Se todo o paradigma desta solidão a dois,
Do encontro comigo de encontro a mim mesmo...

Meus olhos então suam, o corpo, se não, chora!