Mostrando postagens com marcador Bruno Fleischer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bruno Fleischer. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de julho de 2012

Diário de uma noite só ou Você-eu & a distância


tudo o que cabe em linhas
tudo, que acabe em rimas

o dia de amanhã é o hoje
numa gramática bárbara

eu amo você, disse
e explodiu, morreu

era cor

se acaso estou mudo
etcétera: isto é tudo

5:35
20 de julho

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Poesia envergonhada (ou O ser & estar da tristeza)

Hoje é tempo de comer mixirica
(Ou eu quero esse tempo de volta
Por isso escrevo)

Sentar no chão da sala
Quebrar a casca laranja
E ficar um minuto arrancando a pele
De cada gomo, o caroço
Pra só depois comer
Uma mixirica (15 minutos)

(Você e o seu cheiro
Que eu não lembro
Os dois) E esta mixirica

Minha mão suja a unha
Limpo na camiseta rasgada
É o último gomo
De que forma aproveitá-lo melhor?
Ao escrever, vou tirando os fios
Brancos que embaçam o laranja de dentro
Consigo ver um caroço ali
Não sei se como de uma vez
Ou se tiro o caroço primeiro
Opto por expurgá-lo
E então já acabou a fruta

(Mas essa demora toda me angustia.)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Meditação sobre a distância

brega é a palavra
que a boca come
e o olho cospe
.
.
.
se a palavra lágrima não existisse
(e a lágrima só existe porque existe
a palavra) a lágrima seria o cadáver
do amor

sábado, 2 de junho de 2012

prolegômenos à solidão

I
decidi deixar tu
(eu acho)

não me bastam os sonhos
essa tormenta que é acordar
toda noite
e não ter tu

não me bastam as vontades
transmutadas em tristeza
essa dor do dia
do coração frio
do estar amputado
inclusive de tu

me relaciono com tua distância
essa capacidade de não ter alguém
só tu
em minha saudade

II
teria feito tudo diferente se entendesse o que significavam aqueles carinhos, as nossas mãos, todas quatro, perdidas umas nas outras, nos (a)braços, costas, pernas, pelos, os olhos, tudo o que fica & morre no depois, porque tenho medo que tu voltes e, como costume, finjas que aconteceu nada, me lembrando, por isto mesmo, incessante, o quanto existiu

III
se me bastasse a lembrança
mas não basta e sou todo uma dor
me baste a memória e, então, te aceito, Solidão.
25.5.2012
4:35

domingo, 15 de abril de 2012

Hai-kai da sodade

se esse papel me servir de beijo, te como
e escrevo na parede
pintura rupestre do amor que te sofro

sexta-feira, 23 de março de 2012

"Vocêu"

quero escrever-te uma carta para ver-te em palavras
representação
os olhos das palavras vêem o que a imagem não fala

sinto falta do teu cheiro cheirado pelo meu nariz
da tua voz ouvida pelo meu ouvido me olvido
da tua carne vista pelos meus olhos – ou sentida

a vida é a vista da vida (ou a vida à vista)
esse mundo reino castelo de areia & sangue
bordado na tua pele

sábado, 3 de março de 2012

I

tu me veio recorridas
vezes à cabeça
percorrendo o plasma
do meu corpo
que, vermelho-sangue
te lamenta
[meu eu-lírico é que te lamenta!]
tu continuas em mim
como se meu corpo
te sentisse o pelo
pelos poros que suo
ao escrever, pensando em tu
estes verbos mortos
estes versos novos
que a mim me foram dados
etcétera e tal
teu nome e teu hálito.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Meu sangue te sugou

I
Tua língua me pediu para ficar.

II
Mandei uma mensagem dessas que toca o celular e vibra a alma e tu me respondeu dentro dos próximos cinco minutos – o tempo suficiente e necessário para manter equilibrada a ansiedade – e como que se me quisesse, e me querendo e eu te querendo, saímos à tardinha, na sombra das ruas underground, pr’um filme qualquer, pr’um motivo qualquer que te colocasse ao meu lado (confesso, agora, que precisei de tu pra esquecer o presente desgostoso do presente). Os curtas acabaram. Tu, ao final, me perguntou o que achei, qual preferi, e eu não sabendo ao certo disse que achei tudo estranho, que não gostei. Tu concordou e tudo treslucidou. Aí eu te queria mais tempo por perto e convidei pr’uma cerveja despretensiosa, pr’uma companhia que me alegra a vida e só. Vai que tu quisesse ficar mais? vai que a gente jantasse juntos como há muito não havia? vai que o tempo pudesse brigar com a lógica e andar em passos lentos? O acontecido foi que conversamos sem o tempo futuro incomodar, sem o dia seguinte chacoalhar a razão batendo incessante à porta, sem querer sair de perto um do outro; ou eu de tu. [juro, Papel, não mentirei a você! minha sinceridade será tatuada a sangue em teu branco.] Quis perpetuar o instante de dois e minhas tentativas restaram frutíferas. Tu me falou das tuas verdades, das tuas tristezas, e de tudo o que se conversa em uma mesa de bar durante cinco horas, banhadas do assunto que nunca conversamos, da conversa que nunca tivemos. Eu te falei o que quis te falar naqueles versos, nem lembro, ou lembro e isso me é desimportante. O clímax foi quando dissertamos sobre o que faríamos depois & o depois se transfigurou no agora, saindo, eu e tu, pr’uma boate que serviu de bar, de carinho e de qualquer coisa que signifique nossas pernas se roçando, nossas mãos se tocando e minha boca te sentindo a língua. Claro que o que se procedeu foi mais, não tenho dúvidas, mas não pra mim, e sim pra tu, já que foi tu quem disse que tua amiga falou que combinávamos, foi tu quem disse que teu namorado imaginava que você me experimentaria, e foi tu quem me quis na tua casa, mesmo eu propondo, sem representar minha vontade, que eu fosse embora, naquela caminhada antes e depois do metrô. Eis que entrei na tua morada, vi as cinzas da cachorra no pote defronte à porta, sentei no sofá ao teu lado, e tu propôs, envergonhada, que subíssemos pro quarto já que a janela da sala, às cinco da manhã, nos propagandeava. A gente tirou a roupa, tu me massageou como nunca, eu fingi uma sabedoria inútil, e pelos pêlos dormimos abraçados. No dia seguinte tu me chupou. (Confesso, também, que tua boca me fez me sentir mais vivo.) Mas a tua empregada me apressava como se alguma realidade precisasse existir. Fui embora em tchau fugaz. À tarde, mandei uma mensagem sem minh’alma vibrar e tu respondeu bem. É que aí acreditei no amor. Só que o cimento da cidade de São Paulo me afastou de tu, o cimento da cidade que transforma tua vontade em repressão me afastou de tu, e, mesmo com o tempero de árvore na Pôr-do-Sol, esse cimento todo me afastou de tu. Como se tu quisesse te conhecer, tu fechou teus olhos.

III
Fechar os olhos não apaga o fora.

domingo, 30 de outubro de 2011

A extensão da minha epiderme vive em ti


caiu uma lágrima
do olho do céu
que me molhou de tristeza

a flor que brotou foi de dor
essa que me preenche
o tempo – vazio – da distância

duas manhãs não te vejo
e me pego, pelego
entre a chama e a cama

[eu queria ser a tua pele.]

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Carta ao Sentir


Papel em branco que me aguarda ansioso,

venho por meio desta faca maquiada de caneta bic tatuar em você minha angústia fenomênica transitada em julgado na forma de palavra.
É a síntese do necessário.

Com a vênia devida,
Subscrevo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Soneto internado em terno


Eu recuso a tecnologia por tu.
E vou escrever estes verbos
na modernidade d'uma Olivetti
p'ra provar que sou sublime.

Que se eu ouso pensar em algo
senão tu, minha mente em flagelo
se põe a viver no instante agora
corpulento a vida depressiva.

E na entrelinha destes versos
nossas roupas esquecidas
se perdem pelas barracas

e em troca restam os pêlos
que são o futuro peticionado
p'ra deixar de ser engravatado.

sábado, 6 de agosto de 2011

Ensaio sobre quando o tempo fica à margem


I
verbos que neste papel
em branco jazerão
busco em vocês a liberdade
que o pensamento
não me permite viver

II
várias foram as vezes que esbocei palavras a fim de me desenlouquecer, p’ra vomitar este verme que me estremece o corpo e dói nos dias que não passo ao teu lado, e nada (como haveria de ser!), mas persisto e a cada nova tentativa antiga procuro redigir sinfonicamente estes vocábulos p’ra te impressionar; por vezes os sustenidos podem soar estranhos, é que a estética do meu dizer é tão marginal que, por mais clássica, não a reconhecem; mas não te percas nas entrelinhas de um bemol

III
te sonharia caso pudesse pensar
em outra coisa senão tu

IV
minha voz desnuda muda o tom das palavras que te direi, subo uma escala p’ra dissertar que de nada valem as mentiras – se te quero é porque meu corpo te deseja!, sem aspas conduzindo à delicadeza vazia da palavra macia; mas não nego que enfeito o meu quarto com o teu perfume

V
eu não só te queria
eu te seria

VI
há tanto quero escrever uma carta p’ra você, evidenciando mentiras, dissertando sobre minha dieta de mau senso, sobre meu teórico suicídio amoroso; e esta está sendo a carta, porque desde quando você se tornou meu foco, ou, desde quando conversamos você virou poesia p’ra mim, você virou tudo porque desarrumou o aqui dentro e porque qualquer coisa era você; ai!, de quando descendo a rua, a ladeira que hoje é memória, voltei correndo em passos lentos p’ra casa, percebendo o verde do mato que tem naquela praça, o rosa da orquídea agarrada à árvore – imperceptível a olhos acostumados –, os degraus que eram todas aquelas ruas da distância que nos separava: poucas casas; a mentira do tio, da capoeira, do barbeiro, de tudo o que fosse p’ra me deixar mais tempo ao teu lado, como se o tempo pudesse resolver morrer (o tempo não morre, ele é no gerúndio, e a nossa proximidade se tornou abismo); inventei pseudônimos, sufoquei vários papeis de tantas palavras que precisavam ser ditas e inventei algumas, inventei momentos futuros, o passado, o eu p’ra te ter por perto: eu não era torcedor, contei verdades, mas falava de futebol p’ra parecer menino moleque; descobri que podia me sentir bem – precisava te ter ao meu lado –, descobri que o amor é uma coisa escrota, ironicamente, porque escrevendo agora escrevo pieguices, besteiras, e ainda sim tenho coragem de tatuá-las neste papel, por mais que eu possa jogar ele fora a qualquer instante; minto p’ra mim sempre p’ra não pensar em ti e gosto de pensar em ti, de forma que odeio pensar porque percebo que sempre sonho no que diz respeito ao teu nome, o teu nome que já não me arrepia mais, mas, ah!, se eu imaginar a tua voz, o teu cabelo liso e o teu carinho falando comigo, se eu lembrar de você real e não do que me representa você... e de como é difícil lembrar o teu cheiro, como dói; você que hoje não é senão retrato p’ra mim, você antes era o meu pensamento quando resolvia viver, você era o meu próprio eu; você me fez mau, eu não precisava de mais alguém – se você resolvesse viajar, eu nem levava roupas; você foi a paixão que quebrou tudo: eu não sabia mais estudar, eu não sabia mais ser amigo, eu não sabia mais ser filho; aliás, de tudo fazia p’ra te ver, nem que fosse passar em frente a tua casa, num caminho absolutamente burro, nem que fosse fazer os amigos passarem em frente a tua casa, p’ra ver se você estava por lá, nem que fosse pegar o pé de uma flauta doce (aquela parte pequena no final da flauta, sabe?) e uma flor amarela no chão suja, colocar esta dentro daquela, e sonhar a beleza do gesto de deixar na porta da tua casa, e eis que sonhando você chegou de carro com amigos, e eu sonhei mais um pouco pensando em destino – pensando em mentiras que desacredito; você era o assunto de qualquer hora, você era a hora p’ra qualquer assunto

VII
eu morreria junto com você sem pensar
em qualquer outra pessoa & eu ainda penso
na possibilidade de a gente fugir e deixar
o tempo, que é o futuro, à margem da nossa vida.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

verbos e verbetes p'ro agora


parasita abstrato
que decepa flores
não tenho olfato
não olvido odores
no ouvido as dores

no vão do porão
da memória
as cores da dor
os odores da cor
as dores da flor

(tu te deitas, não me ouves
& a orquestra de silêncios
me vive vestida de palavra)